22 jul, 2018

Valores arcanos e os valores tardios

22 jul, 2018

Quando analisamos por via antropológica, podemos compreender muito sobre a hierarquia social que sempre ocorreu majoritariamente na história da humanidade. De como o Patriarcalismo reinou sobre os outros modelos e como isso moldou as concepções e concessões entre as partes conflitantes até o surgimento do estado moderno atual. E um dos maiores erros daqueles que analisam o passado é pensar a história como algo linear, quando na verdade é cíclica. O que passamos hoje já ocorreu em algum momento, e nisso eu me refiro a questões sociais, sobre o que chamamos de “progresso” e como ele já foi vivenciado milênios atrás por nossos ancestrais e como podemos aprender com os erros deles. Agora, como podemos explicar isso de tal forma que compreenda tudo aquilo pelo à qual nós sempre lutamos? Sobre como podemos entender e compreender a degeneração de uma sociedade e quando ela ascende a um ponto de auge numa “era dourada” como chamamos comumente até o momento de seu declínio.

Toda civilização começa socrática e finda epicurista. Quando atinge esse estágio de materialismo é porque já está madura a ponto de ser ceifada. Quando olhamos para o passado e observamos as razões de uma sociedade ascender ou não, devemos observar os valores adotados e sua funcionalidade. Todos os mitos, o conhecimento sobre os mistérios, seu entendimento sobre a metafísica, as lendas, o conhecimento religioso, a sua conexão que ligava todos os povos antigos com seus sincretismos, presava e pensava sobre a funcionalidade de uma cultura. É daí que surgem os mitos, como histórias que continham um conhecimento, uma lição moral valiosa, para estimular algum valor específico, como a virtude, e assim propiciar a harmonia social sobre respectivo assunto numa sociedade.

Excetuando as razões religiosas, suficientes em si mesmas, já que o homem não se satisfaz plenamente apenas com dinheiro ou com encher a barriga, a religião é um importante sustentáculo social, cultural e ético. Ela é, por exemplo, uma “liga” que fortalece as comunidades e o senso de solidariedade entre os homens de uma mesma comunidade. Tenho asco dos que acham que liberdade é um fim em si mesmo e acham que a Moral, a ordem, a boa convivência etc devem ser sacrificadas pela liberdade. Repudio filosofias que negam o indivíduo, mas também repudio esse individualismo soberbo que acha que é liberdade a tudo custo.

O futuro do mundo é uma depressão massiva. Primeiro atacaram a organicidade do estado, atacaram a organicidade da alimentação, futuramente (estamos perto disso) atacarão a organicidade da reprodução, homens não precisando de mulheres e nem mulheres de homens para gerarem filhos (e ambos se orgulhando e esfregando um na cara do outro este fato). E o homem contemporâneo vai percebendo que ele não possui nenhum sentido civilizatório. Não há nada que ele faz que algumas máquinas e o “progresso” não façam. Seria a depressão uma espécie de Seleção Natural? O sujeito fica dissociado, possui a libido baixa, não passa seus genes para frente e se mata. É algo a se levar em conta em tempos atuais. Quando Roma pode desfrutar de fartura e ócio com quase 30% do trabalho realizado por escravos, podemos pensar que isso é um sintoma de sociedade enferma, quando ele opta por agir esquecendo de valores civilizacionais arcanos, como gosto de chamar de valores primordiais, e os valores degenerativos, como chamo os valores tardios, adotados pós a sua era dourada e entrada em declínio.

Mas como podemos definir esses dois lados de uma balança? Resumidamente, podemos ponderar da seguinte forma.

Sociedade ideal = (Valores adotados + funcionalidade)

Pois só com a funcionalidade de uma sociedade que podemos analisar o seu crescimento e expansão natural. Porque é esse o objetivo real de qualquer sociedade, povo, cultura. A perpetuação dela é a razão de sua existência. Todas as formalidades sociais, valores, moralidade e ética de um povo são fundadas em sua raiz na ideia de perpetuação e continuidade. Se não há continuidade, não há razão para existir e tudo acaba em degeneração. É nesse estado que sociedades perecem, por esquecerem de seus valores arcanos, primordiais. Tal geração degenerada regozija-se de valores degenerativos, voltados ao prazer imediato, essencialmente. E a interrupta busca por prazer, como já duramente criticamos em outros livros, é um padrão comum em sociedades decadentes. A liberdade sexual que ora fora uma instituição rígida com parâmetros bem definidos, caí por terra e a sodomia é institucionalizada. Os homens e mulheres se tornam reféns do prazer, a orgia é generalizada, o ócio é via de regra e algo ocorre com esse conglomerado de valores adotados. A sociedade entra em declínio, a taxa de natalidade caí, a instituição familiar é ruída e os homens se tornam uma massa afeminada e covarde.

O antropólogo David. Gilmore, que estudou mais de 70 culturas diferentes traça um padrão entre eles e chega a conclusões de que quanto mais repressivo/rígido for a sexualidade, e a dualidade no papel da sociedade pelo os gêneros feminino e masculino é quando a sociedade chega em seu apogeu militar, social, cultural. Esse declínio sexual, onde ocorre a degeneração pura, como o que aconteceu com Grécia, Roma, China Feudal e Índia em suas fundações eram povos extremamente religiosos e deveras castos e regulada na sexualidade, que acabam por se corromper e institucionalizando a sodomia, adotando os tais valores degenerativos e esquecendo os arcanos, primordiais.

Veja, Alexandre o Grande, muito antes do apogeu de Roma, já elogiava a pequena República de Roma, devido a tamanha disciplina rígida, militarista e religiosa. Os romanos levavam uma vida extremamente casta e sexualmente reprimida através do Pater Familias. Sabemos o que Roma fez e de seu legado. Ao final do corrompido Império, era comum um centro de orgia em cada esquina com centenas de pessoas transando intensamente, seja com escravos, aristocratas com a plebe e todo o resto. A instituição familiar tinha sido praticamente destruída, taxa de natalidade praticamente nula. Homens se tornaram massas afeminadas que nem se quer formavam exércitos. Vendiam territórios em troca de proteção a forças estrangeiras. Criaram até um imposto de solteiro para tentar revitalizar a natalidade, mas tudo em vão. O povo já estava degenerado em decorrência dos valores que foram adotados nas gerações pós sua era dourada. Isso atesta algo, sobre a importância de sociedade fincarem em suas raízes valores universais, imutáveis, absolutos e manter um nível de reciclagem desses valores arcanos para justamente evitar a adoção de valores degenerativos quando não é mais preciso se preocupar com guerras, riscos e afins. Naturalmente, sociedade adotam tais valores quando experimentam longos períodos de paz e fartura. Assim foi com os Romanos em sua Pax Romana e assim ocorreu com o ocidente pós segunda guerra mundial.  Mas é interessante salientar que a sociedade contemporânea acelerou esse processo, pois se pararmos para analisar o declínio do ocidente atual com o do Império Romano, podemos ver sinais do esgotamento desde da própria república, foi um processo lento de centenas de anos enquanto o ocidente pós segunda guerra em menos de 70 anos desfrutou de diversos avanços sociais e culturais acerca da emancipação feminina e liberdade sexual. Claro que não podemos deixar de fora a questão que todo os aliados se sustentavam no ethos da liberdade quando lutaram na segunda guerra mundial e isso é uma característica essencial de repúblicas democráticas modernas. E por se sustentarem nesse paradigma da liberdade esses processos degenerativos são acelerados, e muito embora o que segurou e impediu por algum tempo esse declínio foram as instituições religiosas como o cristianismo na América do Norte e na Europa. O moralismo ainda persistia, mas indubitavelmente estava fadado ao declínio como estamos presenciando agora. Como um amigo meu afirmara, antes da queda livre no que diz respeito aos valores degenerativos, comumente ocorre-se o extremo oposto como uma reação ao declínio, e podemos ver na história posições extremamente austeras, ascéticas e moralistas batendo de frente contra esses “progressos”, mas tal medida é o mesmo exagero que não contribui com o progresso que tanto desejamos, porque muito dos movimentos cristãos acabaram renegando questões civilizacionais importantes como evolução tecnológica e que embora tenham tido respaldo moral em tempos contemporâneos tal coisa não pode ser descabida ou ignorada.

A resposta está nas ponderações do que é saudável ou não para uma sociedade e inevitavelmente todas elas trabalharam objetivando isso porque a vida é sobrevivência, e todas as ações são voltadas nisso, embora não pareça por vivermos em sociedades que contribuem para o esquecimento dessa lei universal, ficamos dopados com uma falsa sensação de segurança, pois esse desprendimento com o que ocorre a nossa volta, com os valores, os conhecimentos, a sobrevivência, a ética, são sintomas de uma doença que nos inferniza por gerações. Esse erro começou por nós, homens, e será a partir de nós, a restruturação da normalidade para o início de um novo ciclo.

“No início, quando os homens viviam imbuídos de sentimentos dignos de heróis, eles honravam a virtude que nos torna semelhantes aos deuses; obedeciam às leis fixadas pela Natureza e, unidos com uma mulher de idade apropriada, geravam crianças virtuosas. Mas, pouco a pouco, a raça caiu dessas alturas para o abismo da luxúria, buscando prazer ao longo de caminhos novos e errantes.” — (Luciano de Samósata, escritor Romano, 125-181 EC).

 

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